terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Mostra Visual de Poesia Brasileira - Poesia Em Movimento


 

Segredo é uma coisa

que se conta

para poucas pessoas

 

e essas poucas pessoas

contam para outras

poucas pessoas

 

e essas outras

poucas pessoas

só contam para algumas

poucas pessoas

 

Segredo é uma coisa

que muitas pessoas

podem ficar sabendo

 

Dinovaldo Gillioli

Florianópolis-SC

Cem Poemas – Editora UFSC - 2008





Álibi

 

permeando

teu corpo

 

permaneço

absorto

 

envolto

no sonho

 

que a vida

ávida

 

me impõem

aos poucos

 

Lau Siqueira

João Pessoa – PB

Inventário do Pêssego – Casa VERDE

2020

tudo

 

viver o instante é tudo o que posso

viver o instante é tudo o que passa

 

Aricy Curvello

Belo Horizonte-MG – Infinito 



 

Ainda que seja tarde

 eu quero

como um quero quero

esse campo límpido

esse mar de água e sal

para o meu corpo olímpico

 

Rúbia Querubim

https://arturkabrunco.blogspot.com/



 Acervo

A Luiz Ricardo Souza

 

de todo os anseios

ficaram quadros,

emoldurados de paredes.

E em cada tela

uma monocromia.

 

De todos os desejos

ficaram livros,

contando estórias.

E em cada página

em eu reticenciado.

E notas musicais

de canção inaudível.

E par de chinelos

rente à cama:

ficou um acordar

de pé esquerdo.

E roas murchas

arquivadas em lelos.

E diamantes sulcando

Piazzolas.

E vai-e-vem de pêndulos.

 

De todos os momentos

ficaram fotos,

que uma polaroid

do tempo retratou.

 

E uma porta

dando pra rua,

entreaberta.

 

Antonio Roberto de Gois Cavalcanti – Kapi – Ato 5 – Coletânea – Grupo Uni-Verso – Campos dos Goytacazes-RJ – 1979

https://fulinaimacentrodearte.blogspot.com/




Antropofagia 

 

esse poema é um tratado

entre o poeta que tem fome de clareza

e sua musa simbolismo de beleza

 

se eu não beber teus olhos

não serei eu nem mais ninguém

disse o poeta a sua musa ainda esfinge

 

beber na fontes dos seus olhos

sem medo de ser feliz

 

ela completa

não quero poema em linha reta

ainda sou clarice/beatriz

é ela quem me diz

 

mas eu não sou discreto

no abstrato do concreto

no concreto do abstrato

 

todo homem que tem fome

abapuru é o teu auto-retrato

 

Artur Gomes

Itabapoana Pedra Pássaro Poema

https://porradalirica.blogspot.com/



Jura secreta 34 

 

por que te amo 

e amor não tem pele

nome ou sobrenome 

 

não adianta chamar 

que ele não vem quando se quer 

porque tem seus próprios códigos

e segredos 

 

mas não tenha medo 

pode sangrar pode doer 

e ferir fundo 

mas é razão de estar no mundo 

 

nem que seja por segundo 

por um beijo mesmo breve 

por que te amo 

no sol no sal no mar na neve

 

Artur Gomes

Juras Secretas

Editora Penalux – 2018

                https://fulinaimagens.blogspot.com/



 Goytacá Boy 
musicado e cantado por Naiman 
no CD fulinaíma sax blues poesia 

ando por São Paulo meio Araraquara 
a pele índia do meu corpo 
concha de sangue em tua veia 
sangrada ao sol na carne clara 

juntei meu goytacá teu guarani 
tupy or not tupy 
não foi a língua que ouvi 
em tua boca caiçara 

para falar para lamber para lembrar 
da sua língua arco íris litoral 
como colar de uiara 
é que eu choro como a chuva curuminha 
mineral da mais profunda 
lágrima que mãe chorara 

para roçar para provar para tocar 
na sua pele urucum de carne e osso 
a minha língua tara 
sonha cumer do teu almoço 
e ainda como um doido curuminha 
a lamber o chão que restou da Guanabara 

 

Artur Gomes

Juras Secretas

Editora Penalux – 2018

Gravado em vídeo pelo autor integra a Mostra Arte de Toda Gente – FUNARTE_Rio – 2021 - Curadoria: Tchello d´Barros 

 https://secretasjuras.blogspot.com/



a ignorância é a mãe da idiotice

ou a idiotice é a mãe da ignorância?

 

porque hoje é sábado

e todo dia é dia d

sendo dia também

do meu sagrado ofício

de não querer nada

a não ser esse mar

na frente da minha janela

esse azul de aquarela

em meu espelho

la navie vá a vida é bela

como um suco de jabuticaba

uma salada de beterraba

e não quero mais nada

além dessa cerveja

estupidamente gelada

 

Rúbia Querubim

https://fulinaimargem.blogspot.com/



eu vim de longe

 

eu vim de longe

e quero apenas mergulhar

entre o mar das suas ostras

vasculhar os seus corais

o seu cavalo marinho

o meu lar minha cama

os abissais do nosso ninho

 

Federico Baudelaire

para Rúbia Querubim

https://fulinaimagemfreudelerico.blogspot.com/



ponto de vista

 

depende do olhar de cada um

alguém tem outro

cada um com seu papel

e assim se fez a torre de babel

 

Artur Gomes Fulinaíma

https://arturkabrunco.blogspot.com/



tem dias que a gente se sente

 

me sinto agora

só e bem acompanhado

meu lado de dentro

olhando meu lado de fora

 

Artur Fulinaíma

https://arturkabrunco.blogspot.com/

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Mostra Visual de Poesia Brasileira - Poesia em Movimento


estranhamente

 

deixo-lhe:

acesa a luz da sala

para que não estranhes.

como também

a da sala de jantar

e mesa posta para o lanche.

 

no  banheiro:

pijama e chinelos

e toalha predileta,

para que nada se perca

no ritual noturno.

 

jornais e contas

de luz e da farmácia

na sala de tv.

 

espero que chegues a tempo

de assistir o último seriado.

 

deixei sapatos na área

para que de manhã

alguém os engraxe.

 

não esqueça

de desligar a televisão,

caso durmas na sala.

 

caso contrário,

vais encontrar o quarto

não como de costume:

 

a luz vai estar acesa,

travesseiros e cobertor

na terceira gaveta do armário

e alguns livros fora do lugar.

 

mas duas coisas hão de estar normais:

o relógio preparado para às seis

e essa coisa,

estranhamente normal,

sobre a cômoda :

deixo-lhe.

 

Antônio Roberto de Gois Cavalcanti (Kapi) Ato 5 – Coletânea – Grupo Uni-Verso – Campos dos Goytacazes-RJ – 1979


OLHAR YANOMÂMI

 

o yanomâmi traz consigo

em seu olhar de ser digno

o mistério da verde relva

no vento um vivo da selva

um yanomâmi tem o foco

fixo não perdido, é luz

transvestida de fluxo e paz

te olha rindo: sabe o que faz

o yanomâmi um ser divino

humano em desenhos gráficos

de corpo alma rios matas

andarilhos de pés descalços

o que ofende no yanomâmi

é seu olhar doce de frieza

nada a dar e tudo imaginar

nem tão feliz nem vã tristeza

faróis de uma floresta densa

brilham olhos luminares

yanomâmis não são lendas

são irmãos...familiares

há algo de muito espúrio

na invasão garimpeira


contaminação de mercúrio

contrabando de madeira

como é possível um povo

tão integrado à selva e belo

viver no desassossego de

mortes fomes flagelos

defendo-os com minha flecha

força do punho em negra tinta

nos acordes do meu instrumento

canto o grito: yanomâmi é vida

 

Luis Turiba

Rio de Janeiro - RJ


Yanomami

Para Sapaim e Américo Peret

 

Quando vieram os filhos

do mênstruo

com suas línguas de pólvora,

quando vieram as ordas

rudes,

 

chama Tupã

chama Xamã

 

Quando vier a luz sangrenta,

quando vierem os deuses homicidas

com sua sede de pedras,

 

chama Tupã

chama Xamã

 

Quando os lugares sagrados

forem tocados a noite virá!


Virá como o hálito da manhã 

pois estarei me pondo

fraco;


a noite vira como vento

pois estarei morrendo:


quando o rio grifar

na terra ácida

sua legenda de sangue.


Ó vento que alinha o destino

ó rito que fala os ancestres!


chama Tupã

chama Xamã. 


Salgado Maranhão

Sol Sanguíneo – 2002 




Ainda que seja tarde

 eu quero

como um quero quero

esse campo límpido

esse mar de água e sal

para o meu corpo olímpico

 

Rúbia Querubim

https://arturkabrunco.blogspot.com/




Atravesso as ruas

Da minha cidade

E sou atravessado

Por flechas, faixas,

Letreiros de neon.

Sou um neófito

Nessa vida atual

E procuro ouvir

O grito primal

Aquele que irá

Me silenciar

Pra sempre.

 

Rubens Jardim

São Paulo - SP




Fernando Aguiar

Poemas Visuais – Lisboa-Portugal 

Vampiro Goytacá Canibal Tupiniquim

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