sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

elegia 138

ELEGIA 1938


Carlos Drummond de Andrade

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


 

múltiplas poéticas


quanto mais

me fragmento
ainda mais me multiplico
diamante de porto rico

pérola de algum invento
em são sebastião
             do sacramento


Jura secreta 27

 rio em pele feminina 

o rio com seus mistérios 
molha meu cio em silêncio 

desejo o que nos separa 
a boca em quantos minutos 

as flores soltas na fala 
o pó dos ossos dos anos 

você me diz não ter pressa 
seus olhos fogo na sala 

o beijo um lance de dados 
cuidado cuidado cuidado 

que sou um anjo de fadas 
não beije assim meus segredos 

meus olhos faróis nos riachos 
meus braços dois afluentes 
pedaços do corpo do rio 
meus seios ilhas caladas 
das chamas não conhece o pavio 

se você me traz para o cio 

assim que o sexo aflora 
esta palavra apavora 

o beijo dado mais cedo 
quebra meu ser no espelho 

meu cerne é carne de vidro 
na profissão dos enredos 
quanto mais água me sinto 
presa ao lençol dos seus dedos 

o rio retrata meu centro 
na solidão de mim mesma 
segundo a segundo nas águas 

lá onde o sol é vazante 
lá onde a lua é enchente 
lá onde o rio é estrada 

onde coloca seus versos 
me encontro peixe e mais nada 

 

Artur Gomes

do livro Juras Secretas

Editora Penalux - 2018

www.secretasjuras.blogspot.com



o rascunho

 

contém um poema

           que o poema

                  impresso

                    não tem

 

o testemunho

            na lenta rasura

            na pressão do punho

            na linha da letra

 

o cunho

 

aquilo:

        o que a palavra

                               nem

 

Eduardo Tornaghi

In Sala de Visitas – poetas e poemas

Org. Chris Resplande

Goiânia – GO - 2022


esse vinho em minha boca
me lembra o beijo
no papel de pão
guardado nos vinhedos
de um espelho em vão

Oswald de Andrade


com uma câmera nas mãos
um poema na cabeça
vamos filmar o poema
antes que desapareça

Artur Gomes

Fulinaíma MultiProjetos
contatos: portalfulinaima@gmail.com
(22)99815-1268 – whatsapp

www.fulinaimagens.blogspot.com


carne proibida 2

abusas no meu e-mail
no centro de gravidade
desse meu corpo elétrico

não me dissestes porque veio
acender a lâmpada
na metafísica dos poros

devoro teu corpo atlântico
com meu canino esquerdo

minha fome é quântica
como um barril de pólvora
com o pavio aceso

II
salsa alecrim alfavaca cebolinha
azeite limão hortelã vinagre
azeite com pimenta

quem resiste esse peixe temperado
que a poesia em mim inventra

vem lambe minha língua
que esse me(u)l sal te alimenta 

 

Federika Lispector 


Passaporte para uma viagem ao desconhecido

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cacomanga

na roça desde cedo comecei a escavar palavras e separar uma das outras de acordo com o seu significado dar farelo de milho para os porcos e olhadura de cana para o gado aprendi que no terreiro não dependo de mercado e para que urbanidade se a cidade não tem paz com a enxada capinei a liberdade e descobri que ditadura é uma palavra que não cabe nunca mais


 

Jura secreta 2

não fosse esse punhal de prata
mesmo se fosse e eu não quisesse
o sangue sob o teu vestido
o sal no fluxo sagrado
sem qualquer segredo

esse rio das ostras
entre tuas pernas
o beijo no instante trágico
a língua sem que ninguém soubesse
no silêncio como susto mágico
e esse relógio sádico
como um Marquês de Sade
quando é primavera

Artur Gomes
do livro - Juras Secretas
Editora Penalux – 2018

www.secretasjuras.blogspot.com


Jura secreta 89

a face oculta da maçã
duas partes que se abrem pêssego
campo de girassóis teus pelos
alvoroçados sob o sol de Amsterdã

enquanto isso em teus mamilos penso
o que ainda não comi desta maçã

Artur Gomes

do livro Juras Secretas
Editora Penalux – 2018

www.secretasjuras.blogspot.com



Froyd Ana

Sil vinha
azul são os teus olhos
a cor dos pelos não conheço
teus dedos ainda não toquei

Dracena é uma terra roxa
nave extra-terrena
que humanos não decifraram
pequena vagina virgem
onde os dedos ainda não entraram

e os cachos de uvas
apodrecem nos teus dentes
com um cheiro de leite ardente
esguichando na distância

Artur Gomes
Couro Cru & Carne Viva – 1987

www.suorecio.blogspot.com


Teatro do Absurdo

o quarteto da hipotenusa
versus o quadrado do quarteto
da hipotenusa a musa no quadrado
do retrato fosse apenas fotografia
mas não sendo hipotenusa
somente musa algaravia
uma palavra mais que estrada
sendo musa multi via
me levou nessa jornada
para fora da bahia
todos os santos mar aberto
no abismo a fantasia
de querer musa entretanto
muito mais que poesia

 

Artur  Gomes Fulinaíma

O Poeta Enquanto Coisa

www.secretasjuras.blogspot.com



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

extravio

Extravio

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

Ferreira Gullar
 


Madrugada

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes.

Ferreira Gullar


Neste Leito de Ausência


Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.

Ferreira Gullar


prometi-me possuí-la

 Prometi-me Possuí-la


Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo — deuses frágeis —
eu colho a ausência que me queima as mãos.

Ferreira Gullar 


 

cantiga para não morrer

 

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar
foto: Artur Gomes 

os mortos

 

Os mortos

os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça

 

Ferreira Gullar


Aprendizado

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar



Vampiro Goytacá Canibal Tupiniquim

vampiro goytacá canibal tupiniquim   vermelho meu espelho da cabeça ao coração do coração a cabeça antes que me esqueça  nervos medula mús...