segunda-feira, 11 de setembro de 2023

OcupAção Poética

Hipotemusa 15

 

como ninfa estrangeira ontem me veio envolta de plumas em estado de poesia na baia da guanabara estudava antropologia pelas marinas do Rio no sexo sempre quentinha feito uma gata selvagem gozando a vida no cio vestida em pele de algas despida nos desvarios lambeu o mel entre as coxas desapareceu no navio



Hipotemusa 16

 

nem bem havia anoitecido no parque das ruínas teus olhos de lamparina tocaram a pedra do reino nas águas da guanabara coisa rara aquele peixe brilhante dentro daquela boca com seios de primavera e vinhos da santa ceia

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 era uma vez um mangue

e por onde andará Macunaíma
na sua carne no seu sangue
na medula no seu osso
será que ainda existe
algum vestígio de Macunaíma
na veia do seu pescoço

tá no canto da sereia
no rabo da arraia
nos barracos da favela
nos becos do matadouro
na usina sapucaia?

Joilson Bessa me disse
Kapiducéu já ensaia
Macunaíma vem vindo
no Auto do Boi Macutraia



A flor dos meus delírios
tem cheiro de poesia
relâmpagos de Iansã
incêndio no meio dia
Netuno em polvorosa
me disse em verso e prosa
que ela vem com o frescor da maresia
e eu serei o seu Ogum
anjo da guarda e companhia
hoje mesmo distante
esse preamar me incendeia
ondas espumas explodem na areia
tempestades trovoadas ventania
e nem sei se estando perto
calmaria


Artur Gomes
https://fulinaimagens.blogspot.com/


 Boca do Inferno


por mais que te amar seja uma zorra
eu te confesso amor pagão
não em de ter perdão pra nós
eu quero mais é teu pudor de dama
despetalado em meus lençóis
e se tiver que me matar que seja
e seu eu tiver que te matar que morra
em cada beijo que te der amando
só vale o gozo quando for eterno
infernizando os céus
e santificando a boca do inferno.

Artur Gomes/Luiz Ribeiro

Gravado no CD Fulinaíma Sax Blues Poesia – 2002
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Biografia de poeta

Concebeu poesia
e nasceu pro céu
engatinhou poesia
caiu por terra
não deu

foi pensar poesia
levou outra
e dessa não levantou

só lá pras tantas
do dia seguinte
é que renasceu poesia
ele já não tinha mais
pra onde ir

e foi só poesia
por não ter mais nada
que soubesse fazer

sem água nem pão
tirou leite de pedra
pra fazer poesia

e esteve um bom tempo
sumido poesia

bem mais tarde
seguro de si
(re)apareceu poesia

fez mais poesia

caiu no esquecimento
e pereceu

mas em algum canto
de uma estante poeira
ele permanece poesia.

Saullo de Oliveira

para Antônio Roberto de Góis Cavalcanti – Kapi
foto: Cesar Ferreira
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 tempo


ver Deus olhando nuvens
do pôr do sol da praia
sopro do vento nordeste
virando terral
virando o mar
virando outro cheiro
virando o tempo
mas tempo é tempo
é nada mais
é só tempo
tempo da morte
tempo da vida
crediário duma
prestação doutra
território do ponteiro
demarcado por mijo monótono
comum lugar do tic
perseguido por tac
e amanhã tem que acordar cedo
pra trabaiá

Aluysio Abreu Barbosa
atafona, 08/12/95
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Juras secreta 62

tenho estado
entre o fio e a navalha
perigosamente – no limite
pulando a cerca da fronteira
entre o teu estado de sítio
e o meu estado de surto

só curto a palavra viva
odeio uma língua morta

poema que presta é linguagem
pratico a SagaraNAgem
na esquina da rua torta



                                        jura secreta 129


a coisa que me habita é pólvora
dinamite em ponto de explosão
o país em que habito é nunca
me verás rendido a normas
ou leis que me impeçam a fala
a rua onde trafego é amplo
atalho pra o submundo
o poço onde mergulho é fundo
vai da pele que me cobre a carne
ao nervo mais íntimo do osso

Artur Gomes
Juras Secretas
Edititora Penalux – 2018

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

OcupAção Poética

OcupAção Poética

 

Preparando performances com Monique Frias e Paulo Victor Santana para os dias 19 no Teatro Trianon, dia 22 no Sarau Cultural no FDP Jardim do Liceu e em outubro OcupAção Poética no Palácio da Cultura - FCJOL - Campos dos Goytacazes-RJ

 

com uma câmera nas mão

um poema na cabeça

vamos filmar o poema

antes que desapareça


poema atávico

 

e se a gente se amasse uma vez só

a tarde ainda arde primavera tanta

nesse outubro quanto

de manhãs tão cinzas

 

nesse momento em Bento Gonçalves

Mauri Menegotto termina

de lapidar mais uma pedra

tem seus olhos no brilho da escultura

 

confesso tenho andado meio triste

na geografia da distância

esse poema atávico tem

a cor da tua pele

a carne sob os lençóis

onde meus dedos

ainda não nasceram

 

algum deus

anda me pregando peças

num lance de dados mallarmaicos

comovido

ainda te procuro em palavras aramaicas

e a pele dos meus olhos anda perdida

em teu vestido



 jogo de dadaísta

 

não sou iluminista/nem pretender

eu quero o cravo e a rosa

cumer o verso e a prosa

devorar a lírica a métrica

a carne da musa

seja branca/negra

amar/ela vermelha verde

ou cafusa

 

eu sou do mato curupira carrapato

eu sou da febre sou dos ossos

sou da lira do delírio

e virgílio é o meu sócio

 

pernambuco amaralina

vida leve ou sempre/vida severina

sendo mulher ou só menina

que sendo santa prostituta

ou cafetina

devorar é minha sina

profanar é o meu negócio



jura secreta

 

naquele mar de música

toda meta física

pela tarde quântica

comunhão e prece

no sentido oculto

de mergulhar na pele

dos teus olhos raros

que o poema tece

como um rio claro

onde navegar 


As unhas de Hera

 

o meu amor é um relâmpago

um coice nas trovoadas

caldeirão de raios elétricos

em noites de cingapura

 

algumas noites é Ana

nas madrugadas é Vera

na cama somos Bacantes

mil giga bytes um tera

 

muito mais que tri amantes

no plug me acelera

arranca do chão meus pés

me lança na atmosfera

 

ela - a louca de Espanha

Medusa da Inglaterra

meu corpo tua quimera

enterra suas sete cabeças

enquanto me diz - espera

me morde me lambe - me lanha

com suas unhas de Hera

 


Artur Gomes

Do livro O Poeta Enquanto Coisa

Editora Penalux – 2020

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profana

 

tenho apenas

esse punhal de prata

e a lua já não é mais cheia

poesia sempre na veia

e aquele beijo guardado

que ainda não foi roubado

na noite da santa ceia

 

antes que desapareça


Língua à Brasileira

 

Ó órgão vernacular alongado

Hábil áspero ponteado

Móvel Nobel ágil tátil

Amálgama lusa malvada

Degusta deglute deflora

Mas qual flora antropofágica

Salva a pátria mal amada

 

Língua-de-trapo Língua solta

Língua ferina Língua douta

Língua cheia de saliva

Savará Língua-de-fogo e fósforo

Viva & declinativa

Língua fônica apócrifa

Lusófona & arcaica

Crioula iorubaica.

 

Língua-de-sogra Língua provecta

Língua morta & ressurecta

Língua tonal viperina

Palmo de neolatina

Poema em linha reta

Lusíadas no fim do túnel

Caetano não fica mudo

Nem “Seo” Manoel lá da esquina

Por ti Guesa Errante, afro-gueixa

O mar se abre o sol se deita

 

Por Mários de Sagarana

Por magos de Saramago

Viva os lábios!

Viva os livros!

Dos Rosas Campos & Netos

Os léxicos Andrades, os êxtases

Toda a síntese da sintaxe

Dos erros milionários

Desses malandros otários

Descartáveis, de gorjetas.

 

Língua afiada a Machado

Afinal, cabeça afeita

Desafinada índia-preta

Por cruzas mil linguageiras

A coisa mais Língua que existe

É o beijo da impureza

Desta Língua que adeja

Toda a brisa brasileira

Por mim

       Tupi,

Por tu

               Guesa

 

Luis Turiba

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 PECCATUM MEUM


a espada rasgada na cruz
desfaz-me estoica calma
antes ungida de graça
despida de dor
inferno que dante não cria
na carne carente sangria
no logos que corpo jazia
entranhas teu eu com pavor
pecados me valho pedinte
dos sete me faço ouvinte
de gritos que antes calara
explodo sem freio e pudor
orgulho que me reconheço
me visto de melhor apreço
convenço valor
destrói me a ira sentida
das mãos que me findam vazia
em noite que entrega se faz
dano me dana inveja
o quanto de mim te carrega
quando sozinho se vai
mesquinha sufoco teus passos
apego de seu me encaixo
te quero demais
devoro-te em partes que cruas
sacio metade da gula
não me satisfaz
num louco tormento entrego
ao homem qual vênus irrompe
meu gozo bebido em taça
veneno que dentro me vaza
da nua luxúria que rogo
pecando na alma
acordo
a santa que puta me faz...

Flavia D'Angelo

 quadros postos


quadros de tempos
de espaço e memória
e bem mais de vento

lógica cansada

de coisa alguma

de vida

teu retrato se apaga
como mais um vento
que passou

Ana Dantas


O ator, produtor, videomaker e agitador cultural Artur Gomes acumula uma bagagem de 50 anos de carreira com prêmios nacionais e internacionais em teatro, música, literatura e artes gráficas. Gomes poderia se filiar na tradição literária dos chamados poetas malditos, como comumente e simplistamente nos referimos àqueles autores que constroem uma obra “rebelde” em face do que é aceito pela sociedade, vista como meio alienante que aprisiona os indivíduos em normas e regras. Tais autores rejeitam explicitamente regras e cânones. Rejeição que se manifesta-se também, com a recusa em pertencer a qualquer ideologia instituída. A desobediência, enquanto conceito moral exemplificado no mito de Antígona é uma das características de tais sensibilidades poéticas, que no Brasil já vem de longe com um Gregório de Mattos e ganhou impulso e seguidores com o famoso trio da “parafernália” rebelde: Verlaine, Baudelaire e Rimbaud.

      Já tivemos oportunidade de observar em outras obras do autor, que suas construções poéticas seguem sempre renovadas para cima em matéria de criatividade, elencando uma variada diversidade temática que aborda, sempre em perspectiva ousada e radical, desde o doce e suave sentido do amor, ao cruel da relação amorosa, flertando com o libidinoso, e questões existenciais que expressam indignação, desobediência e transgressão. É que, explica ele: “arde em mim / um rio / de palavras / corpo lavas erupção / mar de fogo / vulcão”.  Outra faceta do autor, digna de nota, é a criação de vários heterônimos como sejam Federico Baudelaire, EuGênio Mallarmè ou Gigi Mocidade, talvez a mais irreverente de todos, porque fala a bandeiras despregadas, sem papas na língua. “Muitas vezes a língua pulsa pula para o outro lado do muro outras vezes a língua pira punk nesses tempos obscuros às vezes a língua Dada vai rolando dados nesse jogo duro muitas vezes a língua dark jorra luz nas trevas desse templo escuro”. 

E aqui temos afinal, mais uma obra desse múltiplo e incansável poeta que caminha com uma flor na boca, símbolo universal de amor, de paz e beleza. A ele não importa verdadeiramente por quais meios: “se sou torto não importa / em cada porta risco um ponto / pra revelar os meus destroços / no alfabeto do desterro / a carnadura dos meus ossos”. É poética que, para além de perquirir as dores e delícias da condição humana em si, envereda pelo viés de nossa condição social sempre ultrajada. Encontramos um poema que nos pergunta: “quem se alimenta / dessa dor / desse horror / desse holocausto // desse país em ruínas / da exploração dessas minas / defloração desse cabaço // quem avaliza o des(governo / simboliza esse fracasso?” Artur Gomes segue sua árdua caminhada, agora com o poderoso concurso da maturidade que lhe chega. Segue emprestando sua voz aos deserdados, aos desnutridos, aos que têm sede, aos que têm fome, ou aos que morrem assassinados nos guetos, nos campos, nas cidades por balas de fuzil, desse país que tarda em referendar a cidadania.

Krishnamurti Góes dos Anjos - Escritor e crítico literário.



Vampiro Goytacá Canibal Tupiniquim

              Artur Gomes vampiro goytacá canibal tupiniquim             poesia  prosa viagens metafóricas por  realidades reinv...