quinta-feira, 27 de julho de 2023

Minerações - Bartolomeu Campos Queirós


Minerações

 

 Há que se afinar o corpo até o último

sempre. Exercer-se como

instrumento capaz de receber a

poesia do mundo. Poesia suspensa

em rotação e translação. Movimentos

moderados alinhavando dias e

luares, estações e colheitas, minutos

e milênios, provisoriamente.

 

 Há que se ter ouvido incapaz de

olvidar ruídos de asa e bússola que

arranham o silêncio com viagens. Ler

no vento notícia de aroma e sumo.

 

Pisar a terra sem sufocar a semente

grávida de árvore e fruto.

 

 Há que se ter os carecimentos da terra

-         sem luz e aquecida por estrela de

grandeza menor – onde eliminar

uma névoa é subtrair-se em aurora.

 

 Há que se chorar com lágrimas

invisíveis como choram os peixes.

 

Nutrir-se de limo e lodo umedecidos

pelo próprio pranto. Nadar em

mágoas, repousar sob a sombra da

lua – cercar-se dessa fascinante farsa

do céu se mirando em espelho de

água e noite. Depois dormir, fechado

sobre si, como concha, sonhando

pérolas.

 

 Há que se aprender do rio o ritmo.

Ao buscar o sal, seu curso não desfaz

paisagem, mas se refaz em paisagem.

 

Percorrendo o exato limite das

montanhas e planícies, o rio cumpre

a rota original esculpida pelo tempo,

pacientemente.

 

 Há que se existir sem sede como a

chuva.  Crina e cauda de nuvem em

relâmpago e galope, destilando

macios espinhos de cristais. Chicote

acariciando pétalas, pontuando

flores na superfície dos mares.

 

Desprender-se pautando o nada.

 

Enxaguar cansaços e entremear-se,

sem incômodo, nos poros da terra.

Regar raízes e outros mistérios

sigilosos do nascimento,

silenciosamente.

 

 Há que se ser frágil o suficiente ereconhecer-se inábil para inferiremendas na lei que equilibra as

águas. Inábil para decretar outros

ministérios ao destino das

constelações. Inábil para escolher as

cores dos crepúsculos.

 

 Há que se vicejar como fazem as

florestas. Unir-se em copas para

aniversariar com sombra o esforço

das raízes suportando tronco, galho,

fruto e flor, que tudo abraçam

desinteressadamente. Como as

árvores há que se receber a gota do

orvalho sem se molhar, preservando

o extrato da noite.

 

 Há que se queimar em calor e luz

como faz o fogo. Chama

desenhando votivas sombras em

ouro e fumaça. Lume que arde

enquanto consome as causas.

 

 Há que se escrever a vida em flauta e

vôo como cantam os pássaros.

 

Buscar na memória a lembrança e a

direção. Ocultar os rastros

percorridos para perder-se no

encontro e ninho. Decifrar o alfabeto

rabiscado nas linhas do vento,

gravado no fruto maduro,

embaraçado na pena trocada. Como

os pássaros, há que se escrever

enquanto é dia e para todos.

 

 Há que se ter a discrição dos

minérios entretidos com os tons do

ar, da água, do fogo – e tão somente –

sem desconfiar fortunas. Ser na

terra o útero e o filho, sem sinais de

medo, nascimento, morte. E como

os minérios ignorar o até quando.

 

 Há que se dormir como dormem as

noites. Aninhando, do poente ao

nascente, o mundo e seus pertences,

apenas para o repouso. Baixar as pálpebras –

asas que acordam sonhos. E sem se surpreender com

os enigmas da treva, dormir. Dormir

como dorme a noite: sem se assustar

com os pios inusitados que cortam

o escuro até aos fantasmas.

 

 Há que se ter a paciência dos caramujos

visitando veredas e várzeas sem se

ferir. Vagar sem pressa, polindo com

prata e alma o percurso. Sem se

desviar do acaso, vestido de espiral

e compasso, passear desejos em fio

e luz, serenamente. Estar assim, sem

perdas e heranças. Ser sem volta.

 

 Há que se morrer como morrem as

sempre-vivas. Escapar-se de si sem

furtar-se aos olhares alheios. Ser, a um

tempo, presença e ausência.

 

 Sorvê-la como seiva que inaugura no

homem um destino vertical. Há que

se somar à natureza até o último

sempre.

 

 Bartolomeu Campos Queirós (1992)


sábado, 8 de julho de 2023

O Encontro de Zé Celso com Dioniso

 

O ENCONTRO DE ZÉ CELSO COM DIONISO

Quando Zé Celso morreu,
O mundo teve um abalo,
Um anjo do céu desceu,
Veloz igual a um cavalo.
Disse ao grande dramaturgo:
— Vim aqui para buscá-lo.

Zé Celso perguntou logo:
— Vai me levar para onde?
— Para o céu, meu bom velhinho,
Onde o bem é uma fronde,
E a vida eterna uma bênção
Da qual o mal se esconde.

Zé Celso então perguntou:
— Lá posso fazer teatro?
Passar batom, rebolar
E também ficar de quatro?
Fazer minhas oferendas
Ao deus o qual idolatro?

— E quem será esse deus?
Pergunta o anjo vexado.
— Ora, pois, é Dioniso,
Companheiro de tablado,
Senhor do vinho e da ira,
Eternamente adorado.

— Não, senhor — responde o anjo. —
Lá no céu só tem um Deus
E todos comem dobrado
Seguindo os desígnios seus.
Zé Celso declinou logo:
Na certa, não são os meus.

— Vá em paz, meu bom amigo,
Dê lembrança a quem quiser.
Irei errar pelo espaço
Porque esse é meu mister.
Estou livre da matéria,
Não sou homem nem mulher.

O anjo ganhou os céus,
Retornou ao paraíso.
Logo após surgiu um jovem
De deslumbrante sorriso
E disse: — Venha comigo,
O meu nome é Dioniso.

E, pegando a mão do mestre,
Seguiu como segue o Louco
Do Tarô pelos abismos,
Sem medo, raiva ou sufoco;
Galgou abismos e nuvens –
Zé Celso ainda achou pouco.

Foram numa terreirada,
Visitaram muitas gentes,
Transmudaram-se nos ventos,
Movedores das torrentes,
E foram vistos no céu
Como dois astros luzentes.

E, alcançando o monte Olimpo,
Zé Celso foi incensado
Por todas as divindades,
Terminando coroado
Como o Grande Dramaturgo,
Por sua vida e legado.

Mas ele lá não ficou:
Com seu talento incomum,
Transita entre outras esferas,
Passando um tempo no Orum.
Sei que, igual ele na Terra,
Jamais surgirá nenhum. 

 

Marco Haurélio


terça-feira, 20 de junho de 2023

Artur Gomes - O Boi-Pintadinho

  

 O Boi-Pintadinho

E

lá vai o boi

com teus olhos tristes

feito mãe cansada

das estradas da vida,

vai carregando dor nos olhos,

cabisbaixo,

com medo de levantá-los

e ser o primeiro

a enfrentar a faca

ou quem sabe a forca.

 

Lá vai o boi de arado

boi de carro

boi de carga

boi de carca

boi de canga

boi de corda

boi de prado.

 

Boi preto

boi branco

lá v ai o boi-pintadinho

levanta meu boi levanta

que é hora de viajar,

se o povo não te cantou

é porque não sabe cantar!

 

Lá vai o boi

na tua consciência

triste e solitária

olhando os que passam

com medo de levantar a voz

e colocar o teu mugido

na consciência dos outros

 

Lá vai o boi

no teu passo manso,

dança na contra-dança

com certeza que esperança

é muito mais aquilo

que já te foi predestinado

lá vai o boi-pintadinho...

 

levanta meu boi levanta

que é hora de viajar

se o povo não te cantou

é porque não sabe cantar!

 

Lá vai o boi

boi Antônio

boi Joana

boi Maria

boi João

boi Thiago

boi Ferreira

boi Drummond

e boi Bandeira

e tantos outros bois

que conheci

por este país afora...

que sabendo ou não sabendo

cada boi tem sua hora

 

lá vai o boi

tranquilamente manso

no teu equilíbrio manco

que me inspira e desespera

vai para o cofre

ele sabe disso

vai para o açougue

ele sabe disso

vai pra balança

e nem parece equilibrista

mas já conhece o seu destino

 

lá vai o boi-pintadinho...

 

levanta meu boi levanta

que é hora de viajar

se o povo não te cantou

a minha história vai contar!

 

E lá vai o boi

atravessando ferrovias

nos vagões a ferro

vai carregado

de marcas pelo corpo

e agonia pela alma

lá vai o boi pintadinho

 

levanta, meu boi levanta

tenha mais fé e menos calma

levanta meu boi de carga

boi de canga boi de corte

boi que nasce pra vida

e a gente engorda pra morte

 

Artur Gomes

O Boi-Pintadinho – 1981

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