poética 44
na pedra do sossego
eu me abstenho
na pedra do sossego
eu me abstrato
na argamassa dos teus olhos
me preservo
na pele dos teus dedos
meu barato
nos mamilos dos teus seios
me concreto
no cio do teu corpo
eu me retrato
Artur Gomes
O Poeta Enquanto Coisa
Editora Penalux – 2020
https://secretasjuras.blogspot.com/
Jura Secreta 47
a face oculta da maçã
duas partes que se abrem pêssego
campo de girassóis teus pelos
alvoroçados sob o sol de Amsterdã
enquanto isso
em teus mamilos penso
o que ainda não comi desta maçã
Artur Gomes
do livro Juras Secretas
Editora Penalux - 2018
https://secretasjuras.blogspot.com/
poética 43
a percepção acho que é um dom uma descoberta um pássaro que pousa em nossa cabeça e nos atira aos fios elétricos do corpo liberdade vem de dentro do motor dos músculos os ponteiros que só se movem quando querem o repouso absoluto é uma forma de silêncio não vejo muita graça em ser sozinho solidão as vezes faz bem noutras assusta mas sou tenho um amor que ainda não me diz abertamente do diamante que mora dentro dele mas toco a música dela tem itálias e palavrões as vezes quando me pergunto onde vou nem sempre tem resposta aliás respostas é o que menos tenho encontrado para as 25 mil perguntas paradas no ar o rascunho dos meus primeiros dias ficou esquecido numa tipografia do tempo emoldurado na tinta que mudou de cor
Artur Gomes
O Poeta Enquanto Coisa
Editora Penalux – 2020
https://secretasjuras.blogspot.com/
poética 38
enquanto escavo a seiva
entre o vão das suas coxas
para desfrutar do teu cio
e santificar o nosso ócio
a selva amazônica perde
mais 200 mil hectares de mata virgem
para as moto serras assassinas
desse venal agro negócio
poética 24
para lucia muniz de sousa
naquela manhã de sol em ubatuba
lambi o ácido que caiu depois da chuva
cheirei resíduos da resina em caraguá
e a toxina que entranhou naquela uva
caiu da lágrima que bebi do teu olhar
poética 25
para salgado maranhão
a cor da tua palavra me conforta
porta que se abre pra beleza absoluta
a vida que tivemos na matéria bruta
a sorte de nascer dentro do norte
na felina selvageria da pantera
o sal que temperou as nossas eras
na pele do tempero ruptura em cada corte
e ao mesmo tempo é voz que predestina
que o poeta não vai morrer antes da morte
poética 26
viajo para muito além do corpo
onde habito no buraco
mais pro fundo
dos sentidos abstratos
no abstrato um samurai
onde o concreto nem de longe
significa o quântico
do amor que ainda trai
poética 27
para ronaldo werneck
foto grafias
foto gramas
pomba rio
pomba minas
rio prece
rio drama
minas tomba
esquadro poema pátrio
partido país penetrado
por quem descobriu a pólvora
pavio explodindo chamas
paiol nas colchas das camas
de um país esfarrapado
poética 28
funk dance funk
para sebastião nunes
a noite inteira invento Joplin na fagulha
jorrando Cocker na fornalha
funkrEreção fel fala
fábio parada de lucas é logo ali
trilhando os trilhos centrais do braZil.
rajadas de sons cortando os ínfimos
poemas sonoros foram feitos para os íntimos
conkretude versus conkrEreção
relâmpagos no coice do coração.
quando ela canta Eleonora de Lennon
lilibay sequestra a banda no castelo de areia
quando ela toca o esqueleto de lorca
salta do som em movimento enquanto houver
e federika ensaia o passo que aprendeu com mallarmè
punkrEreção pancada
onde estão nossos negrumes?
nunkrEreçãonegróide nada
descubro o irado tião nunes
para o banquete desta zorra
e vou buscar em madureira
a Fina Flor do Pau Pereira.
antes que barro vire borra
antes que festa vire forra
antes que marte vire morra
antes que esperma vire porra,
ó baby a vida é gume
ó mather a vida é lume
ó lady a vida é life!
Artur Gomes
O Poeta Enquanto Coisa
Editora Penalux – 2020

O homem com a flor na boca
cada boca tem sua língua
cada língua tem seu vício
cada vício seu desejo
metáfora de fogo quem sabe
ou flor do desejo quem dera
o desejo da língua é o beijo
vermelha flor de aquarela
a rosa quem me deu foi ela
nos olhos da flor o que sinto
no coração absinto o que vejo
e sem nenhum sacrifício
amar de forma indireta
sem pensar fim ou início
de alguma jura secreta
a seta no arco é a flecha
o alvo da flecha é a seta
a flor na boca é desejo
o beijo na flor é a meta
BraziLírica Pereira Pereira
: A Traição das Metárofas
para Dalila Teles Veras
Re-Visitando
aqui
onde as coisas acontecem
agora estou
onde já estive
mesmo não estando
independente de onde esteja
me viaja pra Lisboa
pelas Ilhas da Madeira
e eu aqui de Madureira
me transporto em barco à vela
me transformo em aquarela
com poemas de Kandinski
mando um beijo pro Leminski
e me refaço na Pessoa
Artur Gomes
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Artur Gomes – 2023 – 50 Anos de Poesia
Memória e Resistência – uma Trajetória Multilinguagens – Com Os Dentes Cravados na Memória - IV
Em 1975 com Ponto de Luz, parceria com Vitor Meirelles(Pardal) e Bento Mineiro, vencemos o Festival de Música do SESC Campos.
Aqui preciso abrir um parêntese para descrever um acidente que aconteceu comigo em 1967 e que foi aos poucos me direcionando para outros caminhos em direção a Arte. Mas deixo essa questão para os apontamentos que tenho feito para o livro de memória: Da Nascente A Foz – Um Rio de Palavras.
Em 1976, com Balada Pros Mortais, parceria com Paulo Ciranda, vencemos o Festival de Música de Itaocara-RJ e posteriormente o Festival Universitário realizado no Rio pela Universidade SESRIO.
Interpretei o personagem Fando, da peça Fando e Lis, de Fernando Arrabal, contracenando com Maria Helena Gomes, direção de Orávio de Campos Soares, no Teatro do SESC.
Me encontrava escrevendo alguns poemas e textos para o livro Além da Mesa Posta, que seria lançado em 1977, foi quando ouvi primeira vez a música Apalo Seco de Belchior e os versos “tenho 25 anos de sonho e de sangue e de América do Sul por força desse destino um tango argentino me vai bem melhor que um blues”, soaram como uma pedrada na cuca e vieram de encontro ao que estava escrevendo na época:
Tenho mais de 25 mil perguntas
Tenho mais de 25 mil cartas sem respostas
Tenho um futuro à minha frente
Um presenta às minhas custas
E o um passado às minhas costas
Eu tenho sangue nas veias
Não tenho estrela na testa
A vida vale o quanto custa
E poesia é o que me resta.
Daí, peguei o material já escrito e criei o monólogo – 25 Anos de Sonho e Sangue, que algumas vezes de forma solo e outras contracenando com Jorge Pessanha Santiago, encenei no Teatro do SESC Campos, Teatro São João, em São João da Barra e em Santa Maria Madalena.
Vale lembrar que Jorge Pessanha Santiago(Baiano), na época era estudante do curso Técnico na Escola Técnica Federal de Campos e hoje é doutor em Antropologia, professor titular da Universidade de Lion, na França.
Em Santa Maria Madalena conheci Eurídice Hespanhol Macedo, amor à primeira vista e musa de algumas poesias que escrevi para concluir o livro Além da Mesa Posta.
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